Em 1988, o calor da sala de aula no Colégio Lêda Tajra em Bacabal era mais do que uma condição do tempo. Era um personagem invisível, instalado entre as carteiras, que parecia desafiar cada tentativa de transformar palavras em aprendizado.
Marta observava seus trinta alunos, rostos jovens que oscilavam entre a apatia do cansaço e a energia inquieta de quem não via sentido no que estava escrito no quadro negro. O ventilador, pendurado por um único parafuso que insistia em desafiar a gravidade, girava num ritmo que mais parecia uma contagem regressiva para o colapso.
Ela segurou o giz, um toco branco e quebradiço que sujava seus dedos com um pó fino. Escreveu o nome de Clarice Lispector. O traço saiu trêmulo, não pela falta de habilidade, mas pela dúvida que a acompanhava todos os dias:
como convencer jovens que mal tinham acesso a uma biblioteca pública de que a literatura não era um privilégio de elite, mas algo urgente e vital?
— Professora, pra que a gente vai ler isso? — Graciano um dos rapazes, sentado no fundo, comentou sem sequer levantar a cabeça da mesa cheia de sulcos de caneta. — Isso não enche barriga.

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