O que aconteceu no caso do homem que matou os próprios filhos e depois tirou a própria vida não é apenas uma tragédia familiar. É o retrato cru de uma fragilidade emocional profunda, misturada com posse, incapacidade de lidar com frustração e uma mente que não suportou o “não”.
Quando alguém não aceita rejeição, separação ou perda de controle, não estamos falando apenas de tristeza. Estamos falando de uma estrutura interna que talvez nunca aprendeu a:
- Elaborar frustração
- Assumir responsabilidade emocional
- Diferenciar amor de posse
- Entender que o outro não é propriedade
Existe um tipo de dor que vira vingança.
E quando a dor se mistura com orgulho ferido, machismo estrutural e sentimento de humilhação, pode nascer algo devastador:
“Se não for do meu jeito, ninguém vai ter.”
Isso não é amor.
É controle.
É ego ferido.
É imaturidade emocional em grau extremo.
Há também um padrão cultural perigoso: homens ensinados a não chorar, a não pedir ajuda, a não reconhecer fraqueza. Criados para dominar, não para dialogar. Muitos crescem sem educação emocional, mas com permissão social para explosões. Quando perdem poder dentro da relação, sentem-se anulados como identidade.
Mas nada — absolutamente nada — justifica transformar filhos em instrumento de punição.
Isso é violência vicária.
É usar os filhos para ferir a mãe.
É transformar inocentes em armas.
E agora… falemos dela.
A mulher que ficou.
A mãe.
Ela não perdeu só filhos.
Ela perdeu o chão, o futuro, o sentido do tempo.
E ainda assim, há quem ouse perguntar:
“O que ela fez?”
“Será que provocou?”
“Será que traiu?”
Essa é a segunda violência.
A culpa social jogada sobre quem já está devastada.
Nenhuma escolha afetiva de uma mulher autoriza um homem a matar.
Rejeição não é sentença de morte.
Separação não é autorização para vingança.
A dor dela será eterna.
Existe um tipo de luto que não tem ritual que dê conta.
É uma condenação emocional involuntária.
Espiritualmente falando, há dores que parecem maiores do que o corpo comporta. E nesses momentos, a única saída possível é apoio, acolhimento, rede, silêncio respeitoso e cuidado psicológico contínuo. Não julgamento.
Por Kah Luciano