Existe uma cena que está virando tradição na política brasileira: o prefeito sobe na máquina que espalha asfalto, pega uma trena, faz cara de especialista, aponta para o chão, conversa com alguém e, pronto, nasce mais uma foto ou um vídeo para as redes sociais.
Quem assiste pode até imaginar que está diante de um engenheiro com décadas de experiência em pavimentação. Mas a realidade costuma ser bem diferente. Medir a qualidade de um asfalto exige conhecimento técnico, equipamentos apropriados, ensaios laboratoriais e fiscalização especializada. Não basta posar ao lado da obra.
A função do prefeito nunca foi substituir engenheiros. Seu dever é contratar bons profissionais, cobrar resultados, fiscalizar a execução dos contratos e prestar contas do dinheiro público. O resto é, muitas vezes, marketing.
Na era das redes sociais, governar parece ter se transformado em produzir conteúdo. Vale mais um vídeo de trinta segundos em cima de uma máquina do que uma prestação de contas detalhada mostrando quanto custou a obra, quais materiais foram utilizados, qual empresa executou o serviço e qual a garantia oferecida.
O problema é que esse tipo de espetáculo costuma funcionar. Não porque o povo seja menos inteligente, mas porque uma parcela significativa da população teve pouco acesso a uma educação de qualidade e raramente recebe informações técnicas sobre como funciona a administração pública. Quando faltam informação e transparência, sobra espaço para a encenação.
Enquanto o cidadão discute a fotografia do prefeito em cima da máquina, quase ninguém pergunta o que realmente importa:
- o asfalto tem a espessura prevista no contrato?
- A empresa cumpriu as normas técnicas?
- Houve fiscalização independente?
- O preço pago foi compatível com o mercado?
- Quanto tempo essa pavimentação vai durar?
Essas perguntas dão muito menos curtidas, mas protegem muito mais o dinheiro do contribuinte

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