13/01/2026

DÉCIMO DIA.

Diante do desaparecimento de duas crianças no Povoado São Sebastião dos Pretos, em Bacabal, e com dez dias já transcorridos sem que as buscas tenham produzido um desfecho, é preciso tratar o tema com responsabilidade, realismo e humanidade — sem alimentar falsas certezas, mas também sem decretar o fim da esperança.

Do ponto de vista estritamente técnico, o tempo é um fator severo. Crianças pequenas, em ambiente de mata, enfrentam riscos que se acumulam dia após dia:

 - desidratação, 

- infecções, 

- exaustão física, 

- acidentes naturais e 

- exposição ao clima. 

A ausência de alimentação adequada enfraquece rapidamente o organismo infantil, reduz a capacidade de locomoção e compromete a imunidade. Após vários dias, o corpo passa a operar no limite.

É preciso dizer com franqueza: as chances de sobrevivência diminuem à medida que os dias passam. Essa é a dura realidade que orienta protocolos de busca em qualquer lugar do mundo. Não se trata de pessimismo, mas de respeito à ciência, à biologia humana e à experiência acumulada em operações desse tipo.

No entanto, também seria desonesto ignorar que a sobrevivência humana — especialmente a infantil — nem sempre obedece apenas às estatísticas. 

Há fatores que escapam ao cálculo frio:

  • A existência eventual de água acessível; o local tem água em abundância e isso aumenta a esperança.
  • a permanência das crianças juntas, reduzindo o pânico; são dois irmãos e o vínculo afetivo favorece a união  e as chances de sobrevivência.
  •  abrigo improvisado contra sol e chuva; a região tem bastante abrigos de barro e cobertura de palhas dentro da mata, que são usados por caçadores e lavradores.

Casos raros, mas reais, mostram que a vida, às vezes, resiste onde tudo indicava o contrário.

É exatamente nesse ponto que entra algo que não se mede por laudos nem por relatórios: a fé. 

Para uma comunidade inteira que sofre, para famílias que vivem a angústia do silêncio e para todos que acompanham com o coração apertado, a fé em Deus não é fuga da realidade — é o último refúgio quando a razão chega ao limite.

Crer em um milagre não significa negar os fatos.

Significa afirmar que, mesmo quando as probabilidades são mínimas, a esperança não pode ser interditada. Enquanto não houver um desfecho, a vida ainda é uma possibilidade. E, onde há vida, por menor que seja a chance, há espaço para o agir de Deus.

Que as buscas não cessem. Que a solidariedade permaneça. 

E que, acima de tudo, a fé sustente aqueles que já não têm forças, porque há momentos em que somente ela é capaz de manter alguém de pé.

Em Bacabal, neste décimo dia, o realismo impõe cautela — mas a fé insiste em dizer que o impossível ainda pode acontecer.

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