
Com doze dias do desaparecimento das crianças no Povoado São Sebastião dos Pretos, em Bacabal, sem que as buscas tenham produzido qualquer pista de Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4 anos, é preciso ter responsabilidade, realismo, mas acima de tudo, humanidade — sem alimentar falsas certezas, mas também sem decretar o fim da esperança.
Do ponto de vista estritamente técnico, o tempo é um fator severo. Crianças pequenas, em ambiente de mata, enfrentam riscos que se acumulam dia após dia:
- desidratação,
- infecções,
- exaustão física,
- acidentes naturais e
- exposição ao clima.
A ausência de alimentação adequada enfraquece rapidamente o organismo infantil, reduz a capacidade de locomoção e compromete a imunidade. Após vários dias, o corpo passa a operar no limite.
É preciso dizer com franqueza: as chances de sobrevivência diminuem à medida que os dias passam. Essa é a dura realidade que orienta protocolos de busca em qualquer lugar do mundo.
Não se trata de pessimismo, mas de respeito à ciência, à biologia humana e à experiência acumulada em operações desse tipo.
No entanto, ignorar que a sobrevivência humana — especialmente a infantil — nem sempre obedece apenas às estatísticas, seria decretar a morte antecipada das crianças.
Há fatores que permitem ter esperança:
- A existência eventual de água acessível; o local tem água em abundância e isso aumenta a esperança.
- a permanência das crianças juntas, reduzindo o pânico; são dois irmãos e o vínculo afetivo favorece a união e as chances de sobrevivência.
- abrigo improvisado contra sol e chuva; a região tem bastante abrigos de barro e cobertura de palhas dentro da mata, que são usados por caçadores e lavradores.
Casos raros, mas reais, mostram que a vida, às vezes, resiste onde tudo indicava o contrário. É exatamente nesse ponto que entra algo que não se mede por laudos nem por relatórios: a fé.
Para uma comunidade inteira que sofre, para famílias que vivem a angústia do silêncio e para todos que acompanham com o coração apertado, a fé em Deus não é fuga da realidade — é o último refúgio quando a razão chega ao limite.
Crer em um milagre não significa negar os fatos.
É preciso reafirmar que, mesmo quando as probabilidades são mínimas, a esperança não pode ser interditada. Enquanto não houver um desfecho, a vida ainda é uma possibilidade. E, onde há vida, por menor que seja a chance, há espaço para o agir de Deus.
Que as buscas não cessem. Que a solidariedade permaneça.
Desejo que, acima de tudo, a fé sustente aqueles que já não têm forças, porque há momentos em que somente ela é capaz de manter alguém de pé.
Em Bacabal, neste décimo segundo dia, o realismo impõe cautela — mas a fé insiste em dizer que o impossível ainda pode acontecer.