O Brasil não está em um bom caminho e o problema é muito maior do que a vitória da esquerda ou a derrota da direita.
Nosso maior problema está na maneira como estamos tratando quem pensa diferente. O fato é que transformamos adversários políticos em inimigos pessoais e nossos amigos estão se transformando em nossos maiores agressores.
Se alguém vota no Lula, os eleitores da direita já o trata como cúmplice de tudo aquilo que condena no governo. Se alguém vota no Bolsonaro, os eleitores da esquerda imediatamente tenta colocá-lo no mesmo pacote dos extremistas. Desse jeito não existe país que avance.
A eleição acabou, só um ganha e o outro perde e isso faz parte da democracia. Amanhã acontecerá novamente outra eleição e nenhum grupo político é dono permanente do Brasil, do seu estado ou da sua cidade. O poder pertence ao povo.
O que não pode acabar depois da eleição é a cobrança popular sobre as instituições e existe hoje um problema muito mais sério do que saber quem ocupa o Palácio do Planalto: a crise de confiança que alcançou o Supremo Tribunal Federal.
Nos últimos meses, o caso Banco Master colocou ministros do STF no centro de questionamentos gravíssimos. Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.
Alexandre de Moraes passou a enfrentar novos pedidos de impeachment depois da divulgação de informações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As mensagens encontradas pela Polícia Federal indicariam uma proximidade que precisa ser esclarecida e chegaram a levantar suspeita de advocacia administrativa em favor do empresário, com contrato milionárioda esposa do ministrocom o banco do acusado. Existem atualmente representações formalmente protocoladas no Senado contra o ministro, justamente por envolver um integrante da mais alta Corte do país não pode ser tratado como fofoca política. Não pode o pedido de impeachment ficar dormindo em berço esplêndido e nem tampouco, esperar que o STF o condena, por seus próprios pares.
O STF vive uma crise interna em torno dessas investigações. O presidente da Corte, Edson Fachin, decidiu manter temporariamente sob sua relatoria as apurações relacionadas ao Banco Master justamente porque os autos contêm referências a integrantes do Tribunal.
Dias Toffoli também passou pelo centro da tempestade. O relatório apresentado na CPI apontava supostos vínculos indiretos com investigados do Banco Master e possível conflito de interesses na negociação de um resort. Lá pelas bandas do Supremo, o presidente Fachin, que divia zelar pela imagem da corte, divulgou, em fevereiro, nota afirmando que os ministros não identificavam impedimento ou suspeição e registraram que Toffoli havia atendido aos pedidos formulados pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, ou seja, se depender do Supremo, nenhum ministro tem culpa de nada.
Posteriormente, para vergonha geral da Corte, o ministro declarou suspeição por motivo de foro íntimo nos processos relacionados ao Master.
Gilmar Mendes também foi alcançado pelos questionamentos. O relatório da CPI do crime Organizado pediu seu indiciamento por crime de responsabilidade, e embora não tenha sido aprovado o relatório, há representação contra ele tramitando no Senado. E o que não falta é escândalo, desde o Gilmar Palooza com financiamento pra lá de suspeitos, até suas decisões na CBF, que escondem a atuação de seu filho em negócios milionários, segundo reportagem da Revista Piauí.
Kassio Nunes Marques completa esse quadro de horrores. O ministro também passou a ser alvo de pedidos de impeachment. Uma das denúncias apresentadas pelo senador Alessandro Vieira sustenta possível falta de imparcialidade em processos relacionados a interesses do Banco Master. São citadas mensagens obtidas pela Polícia Federal, sua participação em julgamento envolvendo precatórios e supostos benefícios ou relações do banqueiro com pessoas próximas ao magistrado. Outra representação chegou a mencionar suposto custeio de hospedagens e eventos com belas garotas e pagamentos envolvendo pessoa próxima ao ministro. Nada disso, repito, pode ser tratado como condenação antes da apuração, mas tampouco pode ser empurrado para debaixo do tapete.
É exatamente aqui que precisamos abandonar as camisas de esquerda e direita por alguns minutos.
Se Alexandre de Moraes for acusado, a direita não pode condená-lo antecipadamente simplesmente porque não gosta de suas decisões, mas a esquerda não pode deixar impune os crimes que venham a ser comprovados.
Se Kassio Nunes Marques for acusado, a direita também não pode ficar calada simplesmente porque ele foi indicado por Jair Bolsonaro. Se Gilmar Mendes ou Dias Toffoli forem questionados, a esquerda não pode enxergar automaticamente qualquer investigação como uma tentativa de golpe contra o Supremo e nem a direita pode tratá-los como adversários políticos. Cada um deve pagar, estritamente pelos seus crimes, mas devem pagar, sejam indicados pela direita ou pela esquerda.
Ou a regra vale para todos, ou não é regra.
Eu defendo que o Brasil faça uma profunda limpeza institucional, mas essa palavra precisa ser entendida corretamente. Limpeza institucional não significa fechar o Supremo. Não significa invadir tribunal, ameaçar ministro, muito menos significa substituir a Constituição pela vontade de quem está nas ruas.
Significa justamente o contrário. É aplicar a Constituição inclusive contra aqueles que têm a função de interpretá-la.
O Brasil começará a mudar no dia em que os dois lados forem capazes de olhar para um abuso cometido por alguém do seu próprio grupo e dizer: “Isso está errado.”
É aí que começa uma democracia de verdade.

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