José Dirceu volta. E o problema talvez não seja José Dirceu.
A notícia da volta de José Dirceu ao centro das articulações políticas brasileiras deveria provocar espanto. Mas não provoca. E talvez isso seja a parte mais preocupante.
Durante anos, Dirceu tornou-se um dos rostos mais conhecidos de um dos maiores escândalos políticos da história recente brasileira. Seu nome esteve no centro de debates sobre ética, poder, corrupção e funcionamento das instituições. Parecia que sua trajetória política havia chegado ao limite. Mas no Brasil, limites políticos parecem existir apenas para alguns — para outros, o tempo funciona como uma espécie de anistia informal concedida pela memória curta nacional.
Passadas algumas décadas, José Dirceu retorna ao debate público não como alguém politicamente isolado, mas como conselheiro, estrategista e, para muitos, uma referência dentro do partido. O fato, por si só, revela algo muito maior que a trajetória de um homem: expõe uma das maiores fragilidades da democracia brasileira — a baixa capacidade da sociedade de transformar indignação em memória política.
No Brasil, escândalos produzem manchetes; raramente produzem consequências duradouras.
A revolta popular tem prazo curto. A indignação ferve nas redes sociais, domina conversas de rua, gera discursos inflamados e, algum tempo depois, desaparece. Surge uma nova crise, um novo escândalo, um novo adversário. E os antigos protagonistas voltam pela porta da frente.
Criamos a cultura do esquecimento seletivo.
O nosso povo lê manchetes, julga instantaneamente e perdoa vom a mesma rapidez. Mais grave, normalizamos a ideia de que desvios éticos são apenas acidentes de percurso.
Muitos eleitores parecem ter aderido à lógica burra do “rouba, mas faz”, como se eficiência administrativa pudesse compensar suspeitas, escândalos ou episódios que colocaram em xeque a confiança pública.
Essa talvez seja a tragédia política brasileira:
a corrupção deixou de ser vista, por parte da população, como exceção; passou a ser tratada como parte inevitável do sistema. E quando a anormalidade vira rotina, desaparece a capacidade de indignação.
É evidente que ninguém pode ser condenado eternamente na esfera pública apenas por narrativas ou paixões políticas. O Estado de Direito existe justamente para impedir perseguições permanentes. Mas uma coisa é a esfera judicial; outra, completamente diferente, é a responsabilidade política e moral diante do eleitor.
Democracia não funciona apenas com tribunais. Funciona com memória.
E o eleitor brasileiro, frequentemente, parece sofrer de uma estranha amnésia coletiva. Personagens saem de cena desgastados, atravessam anos de rejeição e reaparecem, tempos depois, recebidos como líderes experientes, estrategistas brilhantes ou salvadores da pátria.
José Dirceu volta. Mas talvez o problema nunca tenha sido apenas José Dirceu. E enquanto a memória política continuar sendo tão curta, o Brasil continuará condenado a assistir aos mesmos personagens, aos mesmos métodos e às mesmas histórias voltando ao palco — apenas com novos discursos e novas embalagens.
Porque, no Brasil, às vezes a renovação política parece que é apenas em reapresentar de velhos protagonistas a um público disposto a esquecer.
Fonte: Texto inspirado na matéria do CANAL MEIO.

Nenhum comentário:
Postar um comentário