DA SOBERBA À VIRADA: A ESQUERDA VOLTOU ÀS RUAS E LULA CHEGA AO QUARTO MANDATO
Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno se achando com a faixa presidencial. Pelo menos era essa a impressão transmitida por parte de seus aliados e de seus eleitores. Não era para menos. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Foram mais de 56 milhões de votos contra aproximadamente 53,8 milhões. Pela primeira vez em muito tempo, Lula havia terminado uma etapa decisiva de uma eleição presidencial atrás do adversário.
O resultado produziu no campo bolsonarista uma sensação de eleição praticamente resolvida e talvez tenha sido aí que começou a derrota.
Depois do primeiro turno, Flávio Bolsonaro passou a ocupar o centro da política nacional como favorito. Tinha ao seu lado boa parte da direita, importantes lideranças do Centrão e o apoio de governadores de grandes colégios eleitorais. Dos 21 governadores escolhidos no primeiro turno, 12 declararam apoio a Flávio, inclusive lideranças de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Era uma estrutura política poderosa, mas eleição não termina enquanto existir voto para ser contado e eleitor para ser conquistado.
O que parecia confiança começou, na minha avaliação, a se transformar em soberba. A campanha bolsonarista agiu em vários momentos como se tivesse apenas que administrar uma vantagem, enquanto Lula tinha uma única opção: reconhecer que havia errado e mudar. Lula mudou e mudou radicalmente. A primeira reação aconteceu justamente onde Lula sempre encontrou uma de suas maiores forças: o Nordeste.
Governadores, senadores, prefeitos e lideranças regionais passaram a assumir responsabilidades na campanha. Jerônimo Rodrigues, na Bahia, Rafael Fonteles, no Piauí, além de nomes como Camilo Santana, Rui Costa e Jaques Wagner, foram incorporados à estratégia do segundo turno. O objetivo era evidente: não bastava vencer no Nordeste. Era necessário ampliar a diferença.
Lula também voltou às ruas. Depois de um primeiro turno excessivamente institucional, distante em vários momentos daquela velha imagem do candidato no meio do povo, a campanha recuperou caminhadas, manifestações e contato direto com o eleitorado. A esquerda percebeu algo fundamental: eleição presidencial não se vence apenas com propaganda de televisão, acordos partidários e programas de governo.
É preciso militância na rua e em 2026, é preciso também celular. Talvez uma das maiores mudanças entre o primeiro e o segundo turno tenha acontecido onde a direita parecia imbatível: nas redes sociais.
André Janones voltou a ocupar um papel central na comunicação digital pró-Lula. A mobilização organizada em torno do chamado “Exército do Lula” cresceu rapidamente e obrigou a própria campanha de Flávio Bolsonaro a organizar uma reação digital.
Erika Hilton, uma das grandes vencedoras das eleições proporcionais, também foi chamada para a linha de frente. A campanha passou a reunir parlamentares com enorme capacidade de comunicação, especialmente entre os mais jovens.
E surgiu uma personagem que simboliza talvez melhor do que qualquer outra essa renovação: Ana Elisa, de Minas Gerais. Aos 21 anos, eleita deputada federal pelo PT com mais de 524 mil votos em sua primeira eleição, Ana Elisa passou rapidamente a ser tratada como uma das apostas para renovar a comunicação da esquerda. Sua força estava exatamente onde Lula apresentava dificuldades: juventude, linguagem de internet e capacidade de transformar política em conteúdo compartilhável.
Foi uma mudança importante. Durante anos, setores da esquerda reclamaram do domínio bolsonarista das redes sociais. No segundo turno de 2026, decidiram finalmente disputar esse território com organização.
E os números começaram a mostrar a reação. Depois dos debates, Lula ampliou seguidores e passou a concentrar parcela muito maior das interações e comentários nas redes monitoradas. A eleição passou a ser disputada vídeo por vídeo, meme por meme, corte por corte e grupo por grupo de WhatsApp.
Os debates também ajudaram a construir a narrativa da reta final. Flávio apostou no confronto direto. Em determinados momentos, porém, o tom agressivo pareceu ultrapassar a fronteira da firmeza política. Essa não foi apenas uma leitura dos adversários. Depois do debate da Band, integrantes da própria campanha do PL admitiram reservadamente que o candidato poderia ter demonstrado arrogância ao atacar Lula.
Somaram-se a isso episódios, declarações e manifestações vindas do campo bolsonarista que foram interpretadas por adversários como preconceituosas ou ofensivas. Esse tipo de comportamento alimenta uma bolha, mas pode produzir o efeito contrário fora dela.
O eleitor ideologicamente radicalizado talvez goste do confronto permanente. O eleitor comum, aquele que decide eleição apertada, muitas vezes procura segurança, serenidade e alguma perspectiva de normalidade.
E eleição se ganha justamente na margem.
A ESQUERDA VOLTOU ÀS RUAS.
Outra transformação ficou evidente. As ruas voltaram. Depois de uma campanha de primeiro turno relativamente fria, manifestações e atos cresceram durante as três semanas decisivas. A mobilização digital começou a encontrar correspondência no mundo real.
Isso criou uma sensação política completamente diferente. Flávio havia vencido o primeiro turno por aproximadamente 2,2 milhões de votos e termi a com mais de 4 milhões de votos na frente de seu adversário. Neste domingo, 25 de outubro, Lula virou uma eleição que parecia caminhar em outra direção. Às 20h26, assumiu a liderança na apuração. Às 21h10, o resultado já estava matematicamente definido.
É uma virada que merece ser estudada porque não foi apenas a vitória de Lula, foi a derrota de uma estratégia que acreditou cedo demais que a eleição estava ganha. E FOI TAMBÉM UMA MENSAGEM PARA A DIREITA.
Seria um erro gigantesco da esquerda interpretar o resultado como uma rejeição definitiva ao bolsonarismo.
Quase metade do eleitorado brasileiro votou em Flávio Bolsonaro.
A direita sai derrotada para a Presidência, mas continua eleitoralmente poderosa, com governadores, parlamentares, lideranças digitais e enorme capacidade de mobilização.
Lula venceu, mas será que o lulismo sobreviveu? E o bolsonarismo também sobreviveu?
Essa talvez seja a informação política mais importante desta eleição e um alerta ao povo brasileiro: essa polarização só prejudica o país.
COMO SERÁ O LULA 4?
Agora começa outra história. Lula chega ao quarto mandato numa situação completamente diferente daquela de 2003 e até mesmo daquela encontrada em 2023. Ele será novamente presidente de um país praticamente dividido ao meio.
Encontrará um Congresso com forte presença da direita, precisará administrar uma base política heterogênea e terá diante de si um desafio que talvez seja ainda maior do que vencer Flávio Bolsonaro: preparar o Brasil para uma esquerda sem Lula.
Aos novos personagens que apareceram nesta eleição — jovens deputados, lideranças digitais, governadores e parlamentares que assumiram protagonismo — caberá demonstrar que são mais do que instrumentos de campanha.
Lula 4 precisará ser também um governo de transição geracional. Ana Elisa, Erika Hilton, João Campos e outras novas lideranças mostram que existe uma esquerda diferente daquela formada apenas pelos personagens tradicionais do PT.
A eleição também demonstrou que a comunicação política mudou definitivamente. Não haverá mais campanha presidencial competitiva sem redes sociais. Não haverá mais espaço para uma esquerda que abandone WhatsApp, Instagram, TikTok e as novas linguagens digitais para depois reclamar que a direita domina a internet.
Mas o maior desafio será governar. Lula não pode interpretar 51% dos votos como autorização para ignorar os outros 48%. A vitória apertada exige justamente o contrário.
O quarto governo Lula terá que procurar crescimento econômico, responsabilidade fiscal, emprego, redução do custo de vida, segurança pública e pacificação institucional. Terá também que entender que parte expressiva do eleitorado que votou contra ele não é necessariamente bolsonarista — é um eleitor insatisfeito. Esse eleitor precisará ser conquistado pelo governo.
A vitória de hoje encerra uma eleição extraordinária. Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno e chegou ao segundo como favorito. Lula parecia envelhecido politicamente, sua campanha parecia lenta e a esquerda havia perdido espaço nas redes. E Flávio, talvez convencido cedo demais de que seria presidente, viu a vantagem desaparecer. A democracia deu sua resposta nas urnas.
Lula será presidente do Brasil pela quarta vez. Agora começa a pergunta realmente importante:
qual será o tamanho político, histórico e social do Lula 4?
Vencer Flávio Bolsonaro foi apenas o primeiro desafio. Governar o Brasil dividido que saiu das urnas será muito mais difícil.

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